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Portfolio Analise Estatistica

Estudo próprio · dados públicos

Um em cada cinco jovens brasileiros não estuda nem trabalha. Investigamos o que explica isso — e o resultado contraria a intuição mais comum.

Este estudo foi produzido para demonstrar, de ponta a ponta, o método que aplicamos em projetos de análise estatística. Usamos dados públicos do IBGE, documentamos cada decisão metodológica e publicamos o código completo.

Base de dados
PNAD Contínua
IBGE
Período
4º trimestre
de 2023
Entrevistas
98.538
pessoas
População
47,4 milhões
de jovens
20,4% dos jovens de 15 a 29 anos não estudam nem trabalham
2,2× maior a chance entre mulheres, na mesma condição
9,7 mi de pessoas nessa situação no Brasil

A pergunta

Existe um indicador internacional chamado NEET — do inglês Not in Education, Employment or Training. Ele mede a parcela de jovens que, ao mesmo tempo, não está estudando e não está trabalhando.

A taxa brasileira é conhecida e circula em reportagens: gira em torno de 20%. Mas saber o tamanho do problema não diz onde agir. A pergunta que importa é outra:

Pergunta do estudo

“Quais características estão associadas a um jovem estar nessa situação — e qual delas pesa mais?”

A diferença entre as duas perguntas é a diferença entre descrever e explicar. A primeira produz uma manchete. A segunda orienta política pública e investimento social.

O que encontramos

A intuição mais comum aponta para região — a ideia de que o problema é concentrado no Nordeste — ou para escolaridade, a ideia de que quem não terminou a escola fica fora do mercado.

Os dados mostram que ambas influenciam, mas nenhuma das duas é o fator dominante:

Achado principal

Ser mulher é o fator de maior peso do estudo. Uma jovem tem 2,2 vezes a chance de estar fora da escola e do trabalho em relação a um jovem homem — comparando pessoas de mesma idade, região, cor e escolaridade. O efeito é maior que o de região, o de cor e o de ter concluído o ensino médio.

O gráfico abaixo torna isso visível. Observe que a diferença entre as barras rosa e azul, dentro de cada região, é maior que a diferença entre regiões:

Taxa de jovens que não estudam nem trabalham, por região e sexo. Em todas as cinco regiões, a taxa feminina é substancialmente maior que a masculina.
Figura 1. Taxa de NEET por região e sexo. Em todas as regiões a taxa feminina supera a masculina com folga — no Nordeste, 36% contra 21%. Fonte: PNAD Contínua / IBGE, 4º trimestre de 2023. Elaboração própria.

Por que isso muda a leitura do problema

Se o fator dominante fosse escolaridade, a política correta seria ampliar vagas e reduzir evasão. Se fosse região, seria concentrar investimento no Nordeste.

Sendo sexo, a explicação mais plausível é outra: trabalho de cuidado não remunerado. Uma jovem que cuida de filhos, de irmãos ou de familiares idosos não é registrada como “ocupada” pela metodologia internacional — mas também não está disponível para estudar ou trabalhar formalmente.

Uma política desenhada apenas sobre oferta escolar erraria o alvo. O que essa leitura sugere é creche, contraturno e apoio ao cuidado como instrumentos com maior efeito potencial.

O momento em que o problema aparece

O segundo achado é sobre quando a situação se instala. A proporção de jovens fora da escola e do trabalho não é constante ao longo da juventude — ela dá um salto:

Distribuição da situação dos jovens por faixa etária. Entre 15 e 17 anos a maioria só estuda; entre 18 e 24 a fatia de quem não estuda nem trabalha salta para cerca de 25%.
Figura 2. Situação dos jovens por faixa etária. A faixa vermelha — quem não estuda nem trabalha — passa de cerca de 5% entre 15 e 17 anos para aproximadamente 25% entre 18 e 24. Fonte: PNAD Contínua / IBGE, 4º trimestre de 2023. Elaboração própria.

Entre 15 e 17 anos, a esmagadora maioria está na escola — efeito da obrigatoriedade do ensino básico. O salto acontece na transição para os 18 anos, quando a obrigatoriedade termina e a inserção no mercado passa a depender de oportunidade, qualificação e, como vimos, de disponibilidade para trabalhar fora de casa.

Em termos de intervenção, isso indica que a janela crítica é o fim do ensino médio — não a idade adulta, quando a situação já se consolidou.

Todos os fatores medidos

O modelo estimou o efeito de cada característica isolando as demais — ou seja, o efeito de região já desconta diferenças de escolaridade, sexo e cor entre as regiões.

A coluna de efeito mostra quantas vezes a chance aumenta ou diminui em relação ao grupo de referência:

CaracterísticaEfeito na chanceLeitura
Ser mulher2,20×o maior efeito do estudo
Cor/raça indígena1,66×vs. pessoas brancas
Região Nordeste1,30×vs. região Norte
Cor/raça parda1,29×vs. pessoas brancas
Cor/raça preta1,18×vs. pessoas brancas
Cada ano de idade1,08×efeito cumulativo
Concluiu ensino médio0,90×reduz 10% a chance
Região Centro-Oeste0,63×reduz 37%
Região Sudeste0,72×reduz 28%
Região Sul0,55×reduz 45% — a menor taxa
Como ler estes números

Os efeitos de sexo, cor/raça e região medem desigualdade de acesso a oportunidade — não característica das pessoas. O que a tabela mostra é que, no Brasil de 2023, nascer mulher, indígena, parda, preta ou no Nordeste está associado a encontrar mais barreiras para estudar e trabalhar.

Um modelo estatístico consegue apontar onde o problema se concentra e com que intensidade. Explicar por que ele se concentra ali exige olhar para história, território, mercado de trabalho e política pública — o que está além do alcance destes dados.

É por isso que tratamos o resultado como ponto de partida para investigação, e não como conclusão fechada sobre grupos.

Todos os fatores da tabela são estatisticamente significativos, com exceção de cor/raça amarela — cujo efeito não se distingue de zero, provavelmente por tamanho de amostra insuficiente nesse grupo. Reportamos isso em vez de omitir.

Um resultado que merece atenção

Concluir o ensino médio reduz a chance em apenas 10% — bem menos que o senso comum sugere. Isso não significa que a escola não importe.

A explicação mais provável é sobreposição de efeitos: quem concluiu o ensino médio tende a ser mais velho, e a idade aumenta a chance de estar fora do mercado. Os dois efeitos se cancelam parcialmente dentro do modelo.

Este é exatamente o tipo de nuance que só aparece quando se controla por múltiplos fatores ao mesmo tempo — e que uma leitura de indicador isolado não captura.

Como fizemos

  • Escolha da base Comparamos três fontes possíveis — Censo Escolar, RAIS e PNAD Contínua — e escolhemos a PNAD porque é a única que traz, da mesma pessoa, informação sobre estudo e trabalho, incluindo trabalho informal.
  • Definição das variáveis Adotamos a definição internacional de NEET usada pela OCDE e pelo IBGE, documentando cada critério de classificação para permitir contestação.
  • Respeito ao desenho da pesquisa A PNAD não é uma amostra aleatória simples: tem estratos, conglomerados e pesos diferentes por respondente. O modelo incorpora essa estrutura — sem isso, as margens de erro sairiam subestimadas e resultados falsos apareceriam como significativos.
  • Modelagem Regressão logística com plano amostral complexo, estimando o efeito de cada característica com as demais controladas.
  • Validação contra referência externa Comparamos nossos resultados com números publicados pelo IBGE e pelo IPEA. As três taxas principais ficaram dentro da faixa esperada.
IndicadorNosso resultadoReferência externa
Taxa NEET (15–29)20,4%19–22% (IBGE / IPEA)
Jovens estudando37,4%38–42% (PNADc)
População 15–2947,4 mi~48 mi (IBGE) — diferença de 1,2%

Um erro que encontramos no caminho

Incluímos esta seção porque, na nossa visão, o que distingue uma análise confiável não é a ausência de erros — é o processo que os detecta.

Registro de correção

A primeira versão do código produziu taxa de 5,3% — muito distante dos 19% a 22% que a literatura reporta. Em vez de publicar o número, investigamos a divergência.

A causa: jovens classificados como “fora da força de trabalho” estavam sendo excluídos do cálculo, quando pela definição internacional deveriam contar como não-ocupados. Após a correção, a estimativa passou para 20,4% — dentro da faixa esperada.

A diferença entre as duas versões é de quase 15 pontos percentuais. Um relatório publicado com o número errado teria parecido plausível para quem não conhece a referência.

Esse episódio é a razão de existir a etapa de validação contra referência externa no nosso processo. Sem ela, o erro passaria.

O que este estudo não diz

Declarar limites faz parte da entrega. Quatro ressalvas importantes:

  • Associação não é causa. O estudo mostra que ser mulher está associado a maior chance, com magnitude medida. Não prova o mecanismo — a hipótese do trabalho de cuidado é a mais plausível, mas não foi testada diretamente.
  • A definição internacional tem um viés conhecido. Trabalho doméstico não remunerado não conta como ocupação pela metodologia da OCDE, o que pode inflar a taxa feminina. Isso é limitação do indicador, não do estudo — e precisa ser dito.
  • É um retrato, não um filme. Os dados são de um trimestre. Não acompanhamos as mesmas pessoas ao longo do tempo, então não sabemos quanto tempo alguém permanece nessa situação.
  • Renda familiar não entra no modelo. É provavelmente a omissão mais relevante, e seria o próximo controle a incluir.

Ferramentas e reprodutibilidade

Todo o estudo é reproduzível: o código baixa os dados originais do IBGE, processa, modela e gera os relatórios automaticamente. Qualquer pessoa pode rodar e chegar aos mesmos números.

  • R
  • survey
  • targets
  • renv
  • Quarto
  • ggplot2
  • PNADcIBGE
  • Git

Os microdados da PNAD publicados pelo IBGE já são anonimizados. Mesmo assim, aplicamos supressão de células com menos de 5 observações em qualquer agregação publicável — prática descrita em nossa Política de Privacidade.

Tem uma pergunta que os seus dados podem responder?

Este estudo usou dados públicos. O mesmo método se aplica aos dados da sua empresa — vendas, operação, pessoas, clientes.

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