Um em cada cinco jovens brasileiros não estuda nem trabalha. Investigamos o que explica isso — e o resultado contraria a intuição mais comum.
Este estudo foi produzido para demonstrar, de ponta a ponta, o método que aplicamos em projetos de análise estatística. Usamos dados públicos do IBGE, documentamos cada decisão metodológica e publicamos o código completo.
IBGE
de 2023
pessoas
de jovens
A pergunta
Existe um indicador internacional chamado NEET — do inglês Not in Education, Employment or Training. Ele mede a parcela de jovens que, ao mesmo tempo, não está estudando e não está trabalhando.
A taxa brasileira é conhecida e circula em reportagens: gira em torno de 20%. Mas saber o tamanho do problema não diz onde agir. A pergunta que importa é outra:
“Quais características estão associadas a um jovem estar nessa situação — e qual delas pesa mais?”
A diferença entre as duas perguntas é a diferença entre descrever e explicar. A primeira produz uma manchete. A segunda orienta política pública e investimento social.
O que encontramos
A intuição mais comum aponta para região — a ideia de que o problema é concentrado no Nordeste — ou para escolaridade, a ideia de que quem não terminou a escola fica fora do mercado.
Os dados mostram que ambas influenciam, mas nenhuma das duas é o fator dominante:
Ser mulher é o fator de maior peso do estudo. Uma jovem tem 2,2 vezes a chance de estar fora da escola e do trabalho em relação a um jovem homem — comparando pessoas de mesma idade, região, cor e escolaridade. O efeito é maior que o de região, o de cor e o de ter concluído o ensino médio.
O gráfico abaixo torna isso visível. Observe que a diferença entre as barras rosa e azul, dentro de cada região, é maior que a diferença entre regiões:
Por que isso muda a leitura do problema
Se o fator dominante fosse escolaridade, a política correta seria ampliar vagas e reduzir evasão. Se fosse região, seria concentrar investimento no Nordeste.
Sendo sexo, a explicação mais plausível é outra: trabalho de cuidado não remunerado. Uma jovem que cuida de filhos, de irmãos ou de familiares idosos não é registrada como “ocupada” pela metodologia internacional — mas também não está disponível para estudar ou trabalhar formalmente.
Uma política desenhada apenas sobre oferta escolar erraria o alvo. O que essa leitura sugere é creche, contraturno e apoio ao cuidado como instrumentos com maior efeito potencial.
O momento em que o problema aparece
O segundo achado é sobre quando a situação se instala. A proporção de jovens fora da escola e do trabalho não é constante ao longo da juventude — ela dá um salto:
Entre 15 e 17 anos, a esmagadora maioria está na escola — efeito da obrigatoriedade do ensino básico. O salto acontece na transição para os 18 anos, quando a obrigatoriedade termina e a inserção no mercado passa a depender de oportunidade, qualificação e, como vimos, de disponibilidade para trabalhar fora de casa.
Em termos de intervenção, isso indica que a janela crítica é o fim do ensino médio — não a idade adulta, quando a situação já se consolidou.
Todos os fatores medidos
O modelo estimou o efeito de cada característica isolando as demais — ou seja, o efeito de região já desconta diferenças de escolaridade, sexo e cor entre as regiões.
A coluna de efeito mostra quantas vezes a chance aumenta ou diminui em relação ao grupo de referência:
| Característica | Efeito na chance | Leitura |
|---|---|---|
| Ser mulher | 2,20× | o maior efeito do estudo |
| Cor/raça indígena | 1,66× | vs. pessoas brancas |
| Região Nordeste | 1,30× | vs. região Norte |
| Cor/raça parda | 1,29× | vs. pessoas brancas |
| Cor/raça preta | 1,18× | vs. pessoas brancas |
| Cada ano de idade | 1,08× | efeito cumulativo |
| Concluiu ensino médio | 0,90× | reduz 10% a chance |
| Região Centro-Oeste | 0,63× | reduz 37% |
| Região Sudeste | 0,72× | reduz 28% |
| Região Sul | 0,55× | reduz 45% — a menor taxa |
Os efeitos de sexo, cor/raça e região medem desigualdade de acesso a oportunidade — não característica das pessoas. O que a tabela mostra é que, no Brasil de 2023, nascer mulher, indígena, parda, preta ou no Nordeste está associado a encontrar mais barreiras para estudar e trabalhar.
Um modelo estatístico consegue apontar onde o problema se concentra e com que intensidade. Explicar por que ele se concentra ali exige olhar para história, território, mercado de trabalho e política pública — o que está além do alcance destes dados.
É por isso que tratamos o resultado como ponto de partida para investigação, e não como conclusão fechada sobre grupos.
Todos os fatores da tabela são estatisticamente significativos, com exceção de cor/raça amarela — cujo efeito não se distingue de zero, provavelmente por tamanho de amostra insuficiente nesse grupo. Reportamos isso em vez de omitir.
Um resultado que merece atenção
Concluir o ensino médio reduz a chance em apenas 10% — bem menos que o senso comum sugere. Isso não significa que a escola não importe.
A explicação mais provável é sobreposição de efeitos: quem concluiu o ensino médio tende a ser mais velho, e a idade aumenta a chance de estar fora do mercado. Os dois efeitos se cancelam parcialmente dentro do modelo.
Este é exatamente o tipo de nuance que só aparece quando se controla por múltiplos fatores ao mesmo tempo — e que uma leitura de indicador isolado não captura.
Como fizemos
- Escolha da base Comparamos três fontes possíveis — Censo Escolar, RAIS e PNAD Contínua — e escolhemos a PNAD porque é a única que traz, da mesma pessoa, informação sobre estudo e trabalho, incluindo trabalho informal.
- Definição das variáveis Adotamos a definição internacional de NEET usada pela OCDE e pelo IBGE, documentando cada critério de classificação para permitir contestação.
- Respeito ao desenho da pesquisa A PNAD não é uma amostra aleatória simples: tem estratos, conglomerados e pesos diferentes por respondente. O modelo incorpora essa estrutura — sem isso, as margens de erro sairiam subestimadas e resultados falsos apareceriam como significativos.
- Modelagem Regressão logística com plano amostral complexo, estimando o efeito de cada característica com as demais controladas.
- Validação contra referência externa Comparamos nossos resultados com números publicados pelo IBGE e pelo IPEA. As três taxas principais ficaram dentro da faixa esperada.
| Indicador | Nosso resultado | Referência externa |
|---|---|---|
| Taxa NEET (15–29) | 20,4% | 19–22% (IBGE / IPEA) |
| Jovens estudando | 37,4% | 38–42% (PNADc) |
| População 15–29 | 47,4 mi | ~48 mi (IBGE) — diferença de 1,2% |
Um erro que encontramos no caminho
Incluímos esta seção porque, na nossa visão, o que distingue uma análise confiável não é a ausência de erros — é o processo que os detecta.
A primeira versão do código produziu taxa de 5,3% — muito distante dos 19% a 22% que a literatura reporta. Em vez de publicar o número, investigamos a divergência.
A causa: jovens classificados como “fora da força de trabalho” estavam sendo excluídos do cálculo, quando pela definição internacional deveriam contar como não-ocupados. Após a correção, a estimativa passou para 20,4% — dentro da faixa esperada.
A diferença entre as duas versões é de quase 15 pontos percentuais. Um relatório publicado com o número errado teria parecido plausível para quem não conhece a referência.
Esse episódio é a razão de existir a etapa de validação contra referência externa no nosso processo. Sem ela, o erro passaria.
O que este estudo não diz
Declarar limites faz parte da entrega. Quatro ressalvas importantes:
- Associação não é causa. O estudo mostra que ser mulher está associado a maior chance, com magnitude medida. Não prova o mecanismo — a hipótese do trabalho de cuidado é a mais plausível, mas não foi testada diretamente.
- A definição internacional tem um viés conhecido. Trabalho doméstico não remunerado não conta como ocupação pela metodologia da OCDE, o que pode inflar a taxa feminina. Isso é limitação do indicador, não do estudo — e precisa ser dito.
- É um retrato, não um filme. Os dados são de um trimestre. Não acompanhamos as mesmas pessoas ao longo do tempo, então não sabemos quanto tempo alguém permanece nessa situação.
- Renda familiar não entra no modelo. É provavelmente a omissão mais relevante, e seria o próximo controle a incluir.
Ferramentas e reprodutibilidade
Todo o estudo é reproduzível: o código baixa os dados originais do IBGE, processa, modela e gera os relatórios automaticamente. Qualquer pessoa pode rodar e chegar aos mesmos números.
- R
- survey
- targets
- renv
- Quarto
- ggplot2
- PNADcIBGE
- Git
Os microdados da PNAD publicados pelo IBGE já são anonimizados. Mesmo assim, aplicamos supressão de células com menos de 5 observações em qualquer agregação publicável — prática descrita em nossa Política de Privacidade.
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Este estudo usou dados públicos. O mesmo método se aplica aos dados da sua empresa — vendas, operação, pessoas, clientes.
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